vestis_image1Performer Quéfren Crillanovick, 2004. Exposição Maior ou Igual a 4D, Centro Cultural Banco do Brasil, Brasília.

Este primeiro protótipo é uma estrutura composta por quatro aros onde acoplado em cada um existe um micromotor com redutor, sensores para determinar os pontos de abertura/fechamento  do aro de diâmetro menor e um pack de baterias NiCd recarregáveis. Os aros são de tubos de nylon podem movimentar-se, para dentro e para fora, resultando, respectivamente em movimentos de contração e expansão do perímetro do mesmo. Este movimento telescópico é possível pelo deslocamento de um fuso flexível através de uma porca; sendo esta fixa no início do aro com diâmetro maior. A movimentação deste sistema de fusos flexíveis é acionada pelos micromotores, que por sua vez são controlados por um microcontrolador; a definição e controle de todos estes movimentos são feitos por um software proprietário, que tem como dados de entrada as medidas de distância realizadas pelos sensores ultra-sônicos. Os sensores ultra-sônicos posicionados na parte dianteira e traseira da estrutura são utilizados para monitorarem a presença das pessoas em torno de performer/usuário, através de medidas de distância. Esta medida, realizada em intervalos regulares de tempo implica em uma movimentação horária ou anti-horária dos micromotores, que por sua vez induzem, respectivamente, a um movimento de contração ou expansão dos aros. Todos estes deslocamentos são controlados por uma programação definida previamente com a intenção de materializar visualmente “corpos expansivos” – formas mais amplas que permitem uma maior movimentação do usuário, e “corpos restritivos” – formas com aros de diâmetros menores que limitam a movimentação das pernas e braços. Esta programação possui diferentes dados de saída – materializa diferentes formas, conforme a leitura acontece pela parte frontal ou traseira de vestis, reforçando assim as diferenças de percepção respectivamente quando as pessoas se aproximam frontalmente ou pelas costas.

Conceito

O fato de atuar no mundo implica na narrativa sobre o espaço, um contexto que se reconhece a partir da dinâmica dos movimentos e gestos corpóreos – comportamentos, que redefinem constantemente as relações territoriais entre as pessoas. Este compartilhamento termina por imprimir tensões musculares, que, explicitamente, modelam o corpo na sua natureza orgânica, criando couraças que significam arranjos de ataque ou de defesa, de distanciamento ou de aproximação, de indiferença ou reconhecimento, conforme a leitura que as pessoas  realizam da situação em que se encontram. A relação espaço-temporal entre corpos, entre sujeito e objeto, determina uma situação dinâmica – uma composição nada estável que se dá pela percepção e pela sensação. Vestis aborda estes diferentes corpos que se tornam maiores ou menores que os naturais.

O projeto vestis foi idealizado para refletir sobre este espaço interpessoal e as transformações possíveis quando da incorporação de uma interface tecnológica que passa a compor o envelope corpóreo do indivíduo. Têm-se assim os limites territoriais do corpo (re)escritos plastica e dinamicamente pelos aros de vestis. A idéia é apreender estéticamente, estas referências, valendo-se de experiências visuais e táteis para construir distâncias físicas que formalizem os espaços simb´ølicos das relações humanas. Experiências estas vivenciadas pelos participantes como interações dinâmicas moduladas por ações presenciais mediadas, que se estabelecem por relações de envolvimento e engajamento e vem transformando a compreensão e percepção do espaço e do próprio corpo.

Assim, as pessoas precisam usar vestis e experienciar seus próprios corpos, o espaço ocupado; então envolvidas neste processo podem perceber as mudanças que o diálogo com/entre os participantes do espaço expositivo pode provocar – avaliar como a presença de outras pessoas sempre contribuíram na formação da própria expressão. Formaliza-se sensorialmente o fato de que “nós ‘temos’ um corpo e ‘somos’ um corpo” (TURNER apud LOW, 2003), dependente das relações estabelecidas diariamente com o outro – dos “espaços de negociação”. Sem a presença dos outros nada acontece, nada se transforma, nenhum movimento – a estrutura de vestis mantém-se estática. Assim, vestis procura de uma forma estética abordar formas visuais e táteis para experienciar estes “espaços incorporados”, evocando um engajamento dos participantes como uma efetiva e afetiva negociação do uso das conexões corporais.

Performer: Dani Gatti, 2010, SESC Mostra de Artes 2010, São Paulo.